BUMBEL, O DESERTOR.
Ele se chamava Otto Pedro Bumbel. Nascido na cidade de Taquara no longínquo 1914, ano em que o mundo estarrecido ouvia e lia sobre uma guerra que abalava a Europa, que se tornou a primeira grande guerra. Bumbel estudou e se fascinou pelo futebol, assistindo jogos do Taquariense, clube de cores vermelha e branca, fundado em 1911, apenas três anos mais velho que ele.
Tornou-se militar do Exército Nacional e foi galgando patentes. A par dessa atividade profissional, estudava o futebol e todas suas nuances. Jogou muito pouco futebol, mas entendia de futebol, das regras, de esquemas táticos, de como conseguir fazer com que o jogador produzisse o seu limite, dentro de suas limitações.
De Taquara foi para Novo Hamburgo. Lá encontrou espaço na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo, entidade social que congrega até os dias atuais a elite hamburguesa. Lá, além do futebol, introduziu o voleibol e o basquetebol, que aprendera lendo.
Em 1938 já era conhecido na cidade e foi convidado pelo Novo Hamburgo a ser seu treinador de futebol. Aceito o desafio levou o time ao titulo citadino. No começo dos anos 40, as entidades que tinham nome estrangeiro tiveram que mudar e o Novo Hamburgo passou a se chamar Esporte Clube Floriano Peixoto ou apenas Floriano. Bumbel treinou o Floriano e depois o Cruzeiro de Porto Alegre e o Flamengo do Rio de Janeiro, na condição de auxiliar técnico de Flávio Costa.
Em 1946, foi contratado pelo Grêmio com uma missão quase impossível. Parar o Rolo Compressor do Internacional, papão de títulos. Desde o ano de 1940 o Internacional colecionava o gauchão. Em todos os anos passou facilmente pelo Grêmio no campeonato metropolitano e decidia com clubes do interior o título estadual.
Naquele ano aconteceu o que ninguém previa. Otto Pedro Bumbel armou um esquema revolucionário, marcou com vigor as principais estrelas coloradas e levou o metropolitano. O estadual foi até mais fácil. Desde 1932, o Grêmio não conquistava o campeonato gaúcho.
Em 1947 se aborreceu com os dirigentes gremistas e deixou o clube. As conquistas retornaram para o lado rubro. Apanhando de novo, o Grêmio mandou buscar Bumbel mais uma vez, em 1949. Com um time absolutamente inferior, venceu o grenal do metropolitano por 1 x 0, gol de Detefon e precipitou a ruína do Rolo Compressor. Mais uma vez o Grêmio se tornaria campeão estadual.
Neste mesmo ano o Grêmio realizou sua primeira grande excursão pelas Américas. Foram muitas vitórias e a mais consagradora delas, 5 x 0 diante da seleção principal da Costa Rica. Em meio ao campeonato gaúcho de 1951, a Federação da Costa Rica convidou Bumbel para ser seu treinador. Ele largou o Grêmio, largou o Exército, largou tudo. O Grêmio se conformou e contratou outro treinador. No Exército foi declarado desertor e condenado à prisão militar. Durante dez anos ficou exilado, sob pena de prisão.
Seguiu sua brilhante carreira como técnico de futebol, embora melancolicamente pela ausência de sua pátria. Dirigiu com sucesso a seleção da Guatemala, seleção de Honduras e o Saprissa da Costa Rica, pelo qual foi campeão nacional. Na Europa treinou o Porto, campeão português, Lusitano, vice-campeão português e Acadêmica de Coimbra. Na Espanha, o Atlético de Madri, campeão espanhol, Elche, vice-campeão espanhol, Valência, Racing Santander, Sevilha, Málaga e Sabatel.
Passado o período no exílio, Otto Pedro Bumbel retornou à Porto Alegre, onde foi articulista do jornal Diário da Notícias e correspondente do jornal A Bola, de Lisboa. No dia 5 de agosto de 1998, foi encontrado morto no pequeno apartamento onde morava sozinho, com suas lembranças. Havia aproximadamente três dias que havia falecido, quando foi encontrado.